06/09/2020 – México
Amanheceu nublado, e eu ainda estava com a mente pesada pela noite anterior. Peguei o celular e disquei.
"Al?, Liz… desculpa por ontem."
Silêncio curto. Depois, um suspiro.
" Tudo bem. Mas o que aconteceu?"
Passei a m?o pelos olhos, tentando organizar os pensamentos.
" Eu encontrei um moleque… e ele disse que tem uma Bên??o."
" Sim, isso é perfeitamente possível, Alex. Bên??os s?o relativamente comuns. Você deveria saber disso."
" Eu sei. Mas esse n?o é o problema. Mesmo com o meu Selo de Refra??o, eu n?o consegui sentir a Energia U dele."
Dessa vez, foi ela quem ficou em silêncio.
" Isso é… estranho. Mas pode haver uma explica??o. Ele pode estar usando um Selo de Conten??o para anular a emiss?o energética."
" Ele tem quatorze anos, Liz. Se tivesse uma Bên??o, teria manifestado aos cinco, como qualquer outro. Mas parece que… ele acabou de despertar."
A voz dela ficou mais baixa, mais tensa.
" Um despertar t?o tardio… isso nunca aconteceu. Ninguém se torna aben?oado t?o tarde."
Olhei para a porta do quarto, onde o garoto dormia.
" Eu acho que isso tem a ver com o desaparecimento das agentes. N?o pode ser coincidência."
Liz respirou fundo, como se processasse mil possibilidades em um segundo.
" Onde ele está agora?"
" Eu trouxe ele para o meu apartamento. Quero descobrir o máximo possível… antes de entregar qualquer relatório."
" Alex… isso é contra o protocolo."
" Eu sei."
" Você está sozinho nisso?"
" Estou."
" E o garoto? Ele parece perigoso?"
Olhei novamente para a porta. Ele roncava baixinho. Parecia mais um filhote assustado do que qualquer amea?a.
" N?o sei ainda. Mas… algo nele n?o bate. O jeito que ele olha. Como se tivesse visto coisas que ninguém com quatorze anos deveria ver."
Liz mudou o tom de colega para algo mais sério.
" Escuta… se esse garoto realmente despertou agora, sem registro, sem energia detectável, sem histórico… ent?o alguém escondeu isso dele. Ou for?ou."
" Eu pensei a mesma coisa."
" Tome cuidado. Se ele estiver ligado às agentes desaparecidas… você pode estar sentado com a chave do caso. Ou com a bomba."
Engoli seco.
" Ent?o você acha que eu devo continuar investigando?"
" Acho que…sim "
Um barulho veio do quarto. Pegadas. A porta abriu devagar.
Mateus apareceu, cabelo bagun?ado, camisa larga, olhos ainda inchados de sono.
"Alex… eu tive um pesadelo."
Liz ouviu.
" Esse é ele?"
" é."
" Ent?o escuta, Alex… n?o deixa ele sozinho. Nem por um segundo."
Olhei para o garoto.
Ele tremia.
E, ainda assim… havia algo nos olhos dele. Algo despertando.
" Entendido " respondi.
A liga??o caiu.
E o apartamento ficou silencioso demais.
"Bom dia, Alex " disse ele, voz arrastada.
" E aí, Mateus. Vamos tomar um café?"
" Pode ser. Tava falando com quem agora há pouco?"
" Uma amiga minha."
" Tendi… " Ele co?ou o bra?o. " Ent?o… você disse que ia me ensinar sobre Bên??os. E como usa."
" Claro. " Coloquei duas xícaras na mesa. " Mas antes… o que você sabe sobre elas?"
Ele franziu a testa, pensando.
" Bem… elas te d?o poderes, né?"
Eu quase ri.
" Basicamente, sim. Mas é mais complicado do que parece."
Sentei de frente para ele e empurrei a xícara. Ele tomou um gole, fez uma careta estava quente demais mas tentou fingir que n?o se importou.
The story has been stolen; if detected on Amazon, report the violation.
" Tá, presta aten??o. " Apoiei os bra?os na mesa. " Quando o mundo fala 'Bên??os', pensa em milagre. Luz divina. Destino. Mas pra nós, da OMCB, é… biologia avan?ada. Um tipo de muta??o energética.
Mateus abriu mais os olhos, interessado.
" Muta??o?"
" é. Todo aben?oado tem um órg?o especial na lombar. Uma glandula. Ela produz um tipo de energia… a Energia U."
" U de quê?"
" Ninguém sabe. O nome foi dado antes de descobrirem o que ela era. E aí ficou. " Dei um gole no café. " Com essa energia você molda sua Bên??o. Mas pra controlar ela, você precisa de algo chamado Selos."
" Certo… " ele se ajeitou na cadeira. " Quais s?o?"
" S?o cinco. " Levantei a m?o, contando nos dedos. " Fundamental, Invertido, Liga??o, Conten??o e Refra??o."
" Parece coisa de magia."
" é o mais próximo disso que temos."
Mas deixa eu explicar do jeito que meu professor explicava pra mim: com metáforas idiotas.
Ele riu.
" Eu gosto de metáforas idiotas."
" ótimo. " Endireitei na cadeira. " O Selo Invertido é teu 'bra?o' energético. Com ele você cria coisas: barreiras, esferas, tiros, laminas, tanto faz. é o que coloca a energia pra fora."
" Tipo cuspir poder?"
" é… cuspir poder serve."
O Selo de Liga??o é o médico. Ele cuida do seu corpo. Cura, regenera, repara. Em alguns casos, acelera.
Os olhos dele brilharam.
" Ent?o quem tem esse fica quase imortal?"
" Quase. Dói igual, sofre igual, morre igual se exagerar. N?o é videogame."
Já o Selo de Conten??o é o termostato. Controla quanto de energia você libera. Pouco? Você cansa menos. Muito? Você explode mais forte… mas também pode literalmente explodir."
Ele engoliu seco.
" Beleza… vou lembrar de n?o explodir."
" ótimo."
O Selo de Refra??o é o mais útil pra mim: te deixa ver energia. Ler padr?es. Rastrear. Entender o fluxo.
" Tipo enxergar o 'vento' que sai das pessoas?"
" Perfeito."
E por fim… " bati levemente na mesa " …o Selo Fundamental.
" O chef?o?"
" O chef?o. Ele determina tua categoria. é como… o formato do poder. A essência. Seu tipo de Bên??o nasce disso."
Mateus inclinou o corpo pra frente, atento.
" E quantas categorias existem?"
" Cinco também. " ergui cinco dedos de novo. " Ecos, Fissuras, Fraturas, Fluxos e Ressonancias.
" E o que cada uma faz?"
" Vou resumir do jeito certo."
Os Ecos precisam de um objeto. Algo importante pro usuário. Um baralho, espada, casaco, moeda… tem que ter um vínculo emocional.
" Tipo canalizar o poder?"
" Isso."
As Fissuras mudam leis físicas: gravidade, fric??o, som, press?o. é perigoso pra caralho, e geralmente quem desperta isso morre cedo.
" Ok, essa eu n?o quero."
" As Fraturas mexem no corpo e na mente. Super for?a, velocidade, resistência, memória, amplifica??o mental, até coisas espirituais."
Ele sorriu.
" Essa eu quero. "
" Você n?o escolhe. " retruquei. " é ela que escolhe você."
Os Fluxo manipulam elementos e química. Fogo, água, veneno, eletricidade, gelo… o pessoal adora chamar de 'poder de anime'.
" Admito que parece legal pra caralho."
" E é."
Já as Ressonancias…
" S?o o quê?"
" Técnicas que… n?o fazem sentido. N?o seguem lógica. N?o obedecem física, química, biologia.
Coisas que n?o deveriam existir."
O silêncio ficou pesado.
Mateus olhou para o café como se estivesse tentando ver alguma resposta ali dentro.
" E… como eu descubro qual é a minha?"
Suspirei.
" é isso que eu t? tentando entender, Mateus. Você despertou tarde demais. N?o gera energia detectável. E mesmo assim… eu vi seus olhos ontem. Você estava diferente."
Ele apertou a xícara com as duas m?os.
" Eu… posso tentar fazer de novo?"
" N?o. " disse rápido. " Sem controle, sem treino, sem medir sua energia… você pode se machucar. Ou machucar outra pessoa."
Primeiro, vamos entender de onde isso veio.
" Você acha que tem a ver com aqueles caras que me sequestraram?"
" Eu acho que tem a ver com tudo. Suas cicatrizes. O desaparecimento das agentes. Você n?o emitir energia. O seu despertar.
Nada disso é coincidência."
Ele olhou para mim.
O olhar dele… n?o era só medo.
Era expectativa.
Como se ele estivesse pedindo que eu desse uma resposta que mudaria tudo.
" Ent?o, Alex… " ele disse baixinho " …o que eu sou?"
Eu inspirei fundo.
" Ainda n?o sei."
O apartamento ficou silencioso depois da conversa sobre Bên??os. A chaleira ainda soltava aquele chiado baixo, quase como um lembrete irritante de que o mundo n?o tinha parado só porque a vida do Mateus tinha virado de cabe?a pra baixo.
Ele girava a xícara vazia entre os dedos, inquieto.
" Alex… " ele disse, sem me olhar " …eu quero lembrar.
O lugar. Eu só… n?o consigo. "
Puxei uma cadeira e sentei ao lado dele. Nada de interrogatório formal, nada de postura de agente. Só eu e o garoto.
" Mateus, escuta. " falei com calma. " Sua memória n?o apagou. Ela só tá… enterrada. Quando a mente sofre trauma pesado, ela esconde as partes perigosas."
" E como eu desenterro? " perguntou ele, voz embargada.
" A gente faz isso juntos. Mas devagar. N?o vou for?ar nada."
Ele respirou fundo, apertando as m?os.
" Tá… por onde eu come?o?"
" Pelos pequenos detalhes. " respondi. " Sons, cheiros, texturas. às vezes lembrar uma sensa??o traz o resto."
Ele fechou os olhos.
Eu o observei. Ombros tensos, mandíbula travada… mas havia algo ali. Uma vontade visceral de enfrentar o próprio inferno.
"Me diz, Mateus. Quando você acordava lá… o que você sentia primeiro?"
Ele demorou alguns segundos.
" …frio. Muito frio. O ch?o era frio. Gelado. Como… cimento molhado."
" Certo. " eu disse. " E o ar? Como era?"
" Tinha… cheiro de poeira. E… ferro. Tipo… ferrugem como sangue velho."
Eu anotei mentalmente. Cimento, ferrugem, poeira típico de por?es improvisados, casas velhas, depósitos clandestinos.
" Você conseguia ouvir algo? "
Os dedos dele come?aram a tremer.
" …tinha um barulho um som repetitivo."
TAC… TAC… TAC…
Ele abriu os olhos rapidamente, assustado.
" Eu lembro disso! Tinha um relógio na parede! Era velho… redondo… com fundo amarelo.
Ele fazia muito barulho."
" Boa, garoto. Muito boa. " falei, encorajando. " E as pessoas? Você viu alguma delas com clareza?"
Ele engoliu seco.
" Um homem sempre entrava primeiro.
Ele usava um terno e tinha a pele escura"
" E o lugar? A sala onde vocês ficavam. Como era?"
Ele respirou fundo, tentando puxar algo mais fundo na mente.
" As paredes eram… meio descascadas verde claro bem desgastado e tinha uma janela alta… mas com tábuas pregadas. Como se alguém tivesse colocado as tábuas às pressas.
Ele come?ou a esfregar as m?os, inquieto.
" E tinha uma porta… sempre trancada… mas quando abria dava pra ver um corredor. Estreito. Comprido. Com lampadas amarelas tremendo."
De repente os olhos dele se arregalaram, como se uma pe?a do quebra-cabe?a tivesse finalmente encaixado.
"Eu sei onde é. " ele disse, voz trêmula. " Eu… acho que eu sei." ele seguro no próprio bra?o " é perto de um barranco tinha cheiro de terra seca e eu ouvi carros muitos carros Fiquei pensando que era transito."
" Transito? " repeti. " Ent?o a casa era perto de alguma via movimentada."
" Sim sim! " Ele levantou da cadeira impulsivamente. " E tinha som de buzina. Alta.
Eu lembro porque me acordava às vezes."
Montando as pe?as:
Casa velha, paredes verdes, por?o, transito pesado vias congestionadas tábuas pregadas cheiro de poeira
A Cidade do México tinha dezenas de lugares assim.
Mas o padr?o era familiar.
" Mateus… " eu disse devagar, me levantando " …você consegue lembrar de fora? Quando te tiravam da casa… alguma coisa que dava pra ver?"
Ele apertou o próprio cabelo como se tentasse arrancar lembran?as à for?a.
" Tinha… uma antena grande de TV, eu acho e um supermercado do outro lado da rua n?o sei o nome mas o letreiro era amarelo e azul."
Pronto.
Isso reduzia muito.
" Mateus… " coloquei as m?os nos ombros dele " …você acabou de me dar tudo o que eu preciso."
Ele me olhou, ofegante, quase esperando aprova??o.
" Isso quer dizer que… a gente vai lá?"
" Sim agora."
" E… se eles estiverem lá?"
" Ent?o eu fa?o meu trabalho. " respondi, puxando meu sobretudo . " E você fica atrás de mim o tempo todo."
Se eu disser “corra”, você corre.
Se eu disser “abaixa”, você abaixa.
E se eu disser “n?o olha”… você n?o olha.
Ele respirou fundo. Depois assentiu.
" Alex… obrigado. Por… acreditar em mim."
Eu sorri de lado.
" Garoto… depois de tudo que você passou, a última coisa que vou fazer é duvidar de você."
Eu destravei a arma.
E pela primeira vez desde que o encontrei…
ele n?o parecia uma vítima.
Parecia alguém prestes a encarar os próprios monstros.
"Preparado? " perguntei, abrindo a porta.
Mateus hesitou por meio segundo.
Depois encheu o peito de coragem.
"Vamos terminar isso. "

