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Primeiro Capítulo - "Sob o Olhar de Aeltherra"

  Os sinos do palácio soaram três vezes, arrastando seu eco pelos corredores de mármore branco e dourado. No Sal?o real, o rei Alaric presidia o julgamento com o mesmo semblante impassível de sempre — um olhar que parecia pesar séculos.

  Diante dele, um camponês ajoelhava-se, acorrentado. As roupas rasgadas denunciavam a pobreza, e a voz tremia, o desespero.

  —Dize o teu nome. — A voz do rei cortou o ar como lamina.

  — Rendal… das colinas de Thir, majestade.

  — E por que você está aqui, Rendal de Thir?

  O homem engoliu seco.

  — N?o consegui pagar o imposto da colheita, meu rei. A seca levou tudo. Eu… tentei…

  Alaric o interrompeu com o som seco do cetro contra o ch?o.

  — As leis de Aeltherra n?o distinguem quem sofre de quem engana. Se a colheita foi ruim, desvie ter pedido auxílio antes. N?o depois de falhar com teu reino.

  Os camposnês tentaram falar, mas os guardas o arrastaram, e sua voz foi se perdendo pelo corredor. O sal?o caiu num silêncio pesado, quebrado apenas pelo eco dos passos e pelo farfalhar distante dos estandartes.

  Das sombras do corredor lateral, Selene observava tudo.

  O brilho das tochas desenhava em seus olhos um reflexo de tristeza contida — n?o piedade, mas consciência.

  Quando o homem saiu do sal?o, ela avan?ou em silêncio, até que o som de suas botas ecoou levemente no piso polido.

  Alaric o olhar.

  – Selene. — A voz t?o firme, mas havia um vestígio de curiosidade ali. — Eu imagino que ainda estaria no distrito norte.

  Ela fez uma breve reverência, o capuz ainda sobre a cabe?a.

  — Eu estava. Mas vim porque Eric está fugindo das obriga??es novamente, majestade.

  O rei arqueou a sobrancelha, cruzando as m?os sobre o trono.

  — Os herdeiros do trono… sempre imprevisível. — Um meio sorriso se formou em seu rosto. — é uma mo?a persistente. Come?o a acreditar que tens mais paciência do que todos os generais deste reino juntos.

  Ele inclinou a cabe?a levemente.

  — Deveria chamá-la pelo que é… minha futura nora, talvez?

  Selene manteve o olhar firme.

  — Pode me chamar como quiser, majestade. — Havia uma leveza fria em seu tom. — Isso n?o muda o que vim fazer aqui.

  O rei soltou um riso breve, mais de cansa?o do que de humor.

  — Ent?o diga. O que a traz até este sal?o, além de me lembrar da teimosia do rapaz?

  — Vim pedir permiss?o para sair em busca de Eric. — Ela discreta o olhar. — Ele desapareceu novamente… pela terceira vez nesta semana.

  Alaric ficou em silêncio por um momento. Depois, clamou-se devagar, descendo um degrau do trono. A luz dourada das tochas tocou seu rosto cansado.

  — Três vezes… — murmurou. — E ainda assim, nenhum de meus homens conseguiu rastrear seus movimentos.

  Ele respirou fundo.

  —Vá. Traga-o de volta. Diga-lhe que, se continuar fugindo do trono, ele herdará apenas o peso de sua desobediência.

  Selene fez uma reverência breve.

  — Entendido.

  Enquanto ela se virava para sair, Alaric falou novamente, no tom mais baixo:

  — Selene…

  Ela parou, mas n?o olhou para trás.

  — Quando o encontrar… diga-lhe que o reino ainda o observa. — O rei voltou a se sentar. — E que Aeltherra n?o espera por ninguém.

  Selene n?o respondeu. Apenas contínuo caminhava pelo corredor, o manto prateado oscilando com o vento que entrava pelas janelas altas.

  E quando as portas do sal?o se fecham atrás dela, a luz parece diminuir.

  Do trono, Alaric recostou-se outra vez, encarando o vazio diante de si.

  —

  O vento soprava frio nas montanhas de Aeltherra, carregando o som distante dos sinos do palácio. As nuvens se movem lentamente sobre o vale, onde o ouro das torres reais reflete a luz pálida da manh?.

  No topo de uma encosta alta, Eric observava tudo em silêncio.

  As muralhas da capital parecem pequenas dali — quase frágeis, como se poderiam se desfazer com um simples sopro.

  Ele apoiou as m?os nos joelhos, o olhar distante, e murmurou:

  — Eu realmente n?o entendo meu pai...

  As palavras se perderam no vento.

  O jovem respirou fundo, o ar frio queimando-lhe o peito. Depois, deixou-se cair de costas sobre a grama úmida, olhando para o céu aberto acima. As nuvens passam bem devagar, e por um instante o mundo parece quieto, suspenso.

  — Queria que tudo isso fosse diferente... — disse em voz baixa, quase um desabafo.

  O som do vento respondeu, arrastando folhas e lembran?as por entre as colinas.

  Ele fechou os olhos, sentindo a brisa no rosto.

  O peso do nome que carregava parecia leve apenas ali — longe do trono, longe das responsabilidades que insistiam em alcan?á-lo.

  E ent?o, por um instante, Eric apenas respirou, como se tentasse congelar aquele momento antes que o mundo voltasse a chamá-lo.

  O vento ainda soprava sereno quando Eric fechou os olhos, sentindo o perfume da relva misturado ao frio das alturas. Por um instante, o mundo parecia longe — o reino, o trono, as obriga??es… tudo parecia distante o bastante para que ele pudesse, enfim, respirar.

  Ent?o, algo interrompeu a calmaria.

  Um leve chute no bra?o, firme o bastante para ser sentido, mas sem agressividade.

  Ele abriu os olhos devagar, franzindo o cenho.

  — H?...?

  Virou o rosto — e o que viu o fez erguer as sobrancelhas, entre surpreso e resignado.

  Selene.

  Ela estava ali, de pé ao seu lado, com o vento agitando os fios castanhos do seu cabelo. O capuz caía parcialmente para trás, revelando seus olhos claros, firmes, que o observavam em silêncio.

  Por um momento, Eric apenas a encarou, sem saber se ria ou se fingia que continuava dormindo.

  — Como… — come?ou ele, mas a própria voz pareceu lhe escapar.

  Selene cruzou os bra?os, o semblante sereno, mas havia uma ponta de ironia em seu olhar.

  Ele suspirou, voltando a olhar para o céu.

  —' você me achou...

  O vento levou suas palavras, e o silêncio voltou a dominar o vale.

  Eric ainda olhou para o céu quando ouviu a voz suave e firme de Selene cortar o silêncio.

  — O rei está pensando no nosso casamento. -

  Ele virou o rosto lentamente, arqueando uma sobrancelha.

  — Casamento nós dois? — Disse, a voz arrastada, entre o cansa?o e o desdém. — Ent?o ele realmente anda pensando demais...

  Selene inclinou a cabe?a, um leve sorriso surgindo no canto dos lábios. O vento brincava com seus cabelos enquanto ela se aproximava um passo.

  — Pensando demais… ou apenas sendo prático — disse ela, com um ar provocante. — Afinal, unir os herdeiros mais teimosos do reino à única pessoa capaz de encontrá-lo n?o parece uma má ideia.

  Ericu solto um suspiro leve, passando a m?o pelos cabelos.

  — Ent?o é isso que ele está planejando agora…?

  Selene se abaixou ao lado dele, apoiando uma das m?os na grama.

  — N?o posso dizer que a inten??o dele seja ruim. — O tom dela ficou mais baixo, quase um sussurro, com um toque de flerte. — Até porque... eu mesmo n?o acho uma má ideia.

  Por um instante, Eric ficou em silêncio. Seus olhos se desviaram do horizonte para ela, e o ar pareceu ficar mais leve — ou mais tenso. Era difícil dizer.

  O vento voltou a soprar, e nenhum dos dois falou por alguns segundos.

  Apenas o som das folhas e o bater distante de asas cortando o céu preencheram o espa?o entre eles.

  Eric parou na grama, os olhos fixos no céu, mas a mente a mil. Pensei em algo grande, um plano que pudesse realmente mudar Aeltherra.

  Mas logo uma sombra de dúvida passou por ele.

  — E se as outras famílias que dominam o reino junto do pai… — murmurou, quase para si mesmo — …n?o aceitarem?

  Selene caiu a cabe?a, inclinando-se levemente para observá-lo.

  — Que coisa grande seria essa, Eric? — Perguntei, curiosa, mantendo o tom leve, mas atenta.

  Eric virou o rosto para ela, o vento brincando com os fios de cabelo.

  — Eu quero liderar um reino de justi?a, de paz… e de amor — disse, a voz firme, mas compartilhada de sinceridade. — Quero que os habitantes n?o se sintam t?o oprimidos. Que n?o precisem ter o peso de impostos ou decis?es que só beneficiem os mais poderosos.

  Selene simpática, um sorriso que misturava admira??o e carinho.

  — Isso é… ambicioso. — Sua voz baixou, quase um sussurro. — Mas, se alguém pode realmente sonhar alto assim, sou eu que estou ao seu lado.

  Eric fechou os olhos por um instante, sentindo o calor daquela certeza simples, mesmo diante do mundo complicado que os cercava.

  O vento continuava a soprar, levando consigo o silêncio das montanhas e o eco distante da cidade abaixo.

  Eric virou o rosto para Selene, a express?o séria agora, os olhos fixos nos dela.

  — E se eu decidir… abandonar o reino? — murmurou, quase como quem teme a resposta. — Você viria comigo?

  Selene demorou um instante para responder, mordendo levemente os lábios inferiores. Seus olhos, que antes foram t?o decididos, agora refletiram uma dúvida silenciosa.

  — Eu… — come?ou ela, a voz baixa e hesitante —, n?o sei ao certo.

  Eric arqueou uma sobrancelha, mas n?o disse nada. Apenas fiquei olhando, como se esperasse que ela completasse a frase.

  — N?o sei se seria certo — contínuo Selene, com um suspiro quase inaudível —, mas também… n?o sei se conseguiria te abandonar.

  O vento arrastava pequenas folhas pelo ch?o, e o silêncio voltou a tomar conta do vale, preenchido apenas pelo distante das cidades e do céu acima.

  Eric fechou os olhos, sentindo o peso e a for?a naquele momento.

  A dúvida dela n?o era um “n?o”, mas também n?o era um “sim”. Era o reflexo da complexidade que ambos enfrentariam se realmente decidissem seguir juntos… longe de tudo.

  Eric hesitou dela, mas n?o se moveu.

  — Está bem — disse, com um suspiro leve. — Aceito.

  Ele se reclinou novamente na grama, olhando para o segundo céu que parecia mais vasto a cada vez.

  O vento brincava com os fios de cabelo, e o som distante do reino parecia agora irrelevante.

  Depois de alguns segundos de silêncio, Eric virou um pouco o rosto, olhando para Selene.

  — Mas me diz uma coisa… — come?ou, com um tom meio sério, meio brincalh?o —, por que você está aqui comigo? E… por que me admira?

  Ele franziu levemente a testa, uma sombra de dúvida pairando sobre o rosto.

  — Quero dizer… eu sou pregui?oso, às vezes um completo vagabundo, e n?o exatamente alguém que faz coisas grandiosas de forma constante. Ent?o… por que você está aqui, ao meu lado?

  Selene cruzou os bra?os, mantendo o capuz ainda parcialmente sobre a cabe?a, e brilhando de forma suave.

  — Eu n?o disse que te amo, mas eu te amo e você sabe muito bem disso. E talvez seja exatamente isso que importa.

  Eric ficou em silêncio, voltando os olhos para o céu, pensando nas palavras dela.

  O vento continuava a soprar, carregando consigo o eco distante do reino, mas, por um momento, naquele vale, parecia que nada mais importanteva além deles dois.

  Eric suspirou, finalmente se levantando da grama.

  Foi ent?o que vi: estava todo sujo, com peda?os de relva grudados nas roupas e pequenas manchas de terra espalhadas pelo manto.

  — Ah, ótimo… — murmurou, come?ando a se sacudir e bater na roupa, tentando tirar a sujeira. A grama voava para todos os lados, colidindo com pequenas pedras e folhas.

  Enquanto se ajeitava, Selene mudou-se silenciosamente, o sorriso discreto nos lábios.

  Antes que ele pudesse reclamar ou se virar, ela encostou suavemente um beijo na sua bochecha.

  — Acho melhor você voltar a cumprir suas responsabilidades e obriga??es — disse, com a voz suave, mas firme. — O reino n?o vai esperar por você para sempre.

  Eric olhou para ela, ainda se sacudindo, mas apenas deu um leve sorriso, resignado.

  — Está bem, está bem… — murmurou, jogando a última folha de grama para o ch?o. — Hora de voltar à realidade, ent?o.

  Selene conversou, e juntos se encontraram por um instante olhando para o horizonte antes que o peso do mundo come?asse a chamá-los novamente.

  Eric voltou a colocar o manto sobre os ombros, ajustou a espada presa à cintura e olhou rapidamente para Selene.

  — Hora de seguir para a cidade — murmurou, como se o simples ato de falar tornasse a decis?o oficial.

  Mas, em vez de seguir o caminho seguro que levava ao port?o do vale, ele come?ou a correr de árvore em árvore, saltando de galho em galho com a facilidade de alguém que parecia ter nascido entre os ventos e a madeira. Cada pulso calculado, cada aterrissagem firme, faz com que a paisagem abaixo se aproxime rapidamente.

  Selene estava onde estava há alguns momentos, o vento brincando com o capuz de seu manto. Ela cruzou os bra?os e inspirou o espetáculo de ousadia e imprudência.

  — Esse garoto realmente n?o tem jeito… — murmurou em pensamento, um leve sorriso surgindo em seus lábios.

  Mesmo à distancia, a confian?a de Eric era quase palpável, misturada com uma certa irresponsabilidade que a deixava divertida e preocupada ao mesmo tempo.

  E enquanto ele avan?ava entre as árvores, como se o mundo inteiro fosse seu terreno de treino, Selene apenas suspirou, sabendo que o acompanharia de perto seria impossível — e talvez necessário.

  O vento batia no rosto de Eric enquanto ele chegava à borda do muro da cidade.

  O contraste entre a altura e o ch?o logo abaixo n?o parecia intimidado. Pelo contrário, havia um brilho desafiador em seus olhos.

  Ele respirou fundo, avaliando a distancia. A cidade se estendia a apenas cinco metros de onde ele estava, com o topo das casas e telhados vindo como um convite silencioso.

  — Fácil demais — murmurou para si mesmo, um sorriso surgindo em seus lábios.

  Sem hesitar, Eric se impulsionou para frente, saltando com for?a e agilidade.

  O vento sibilou em seus ouvidos enquanto ele cortava o espa?o entre o muro e os telhados, aterrissando com firmeza na pedra sólida da cidade.

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  O impacto mal fez um som, e ele imediatamente se p?s de pé, pronto para continuar seu avan?o pelo centro da cidade. Cada movimento parecia natural, rápido, quase uma dan?a entre coragem e imprudência.

  Eric ainda se recomp?s da aterrissagem ágil sobre os telhados quando um oficial surgiu à sua frente, de passos firmes e olhar sério. O uniforme impecável e a postura deixavam claro que ele n?o era alguém para ser ignorado.

  — Senhor Eric — come?ou, a voz firme, mas sem hostilidade —, o rei está esperando por você no palácio.

  Eric arqueou uma sobrancelha, desviando o olhar para o oficial enquanto ajustava o manto.

  — Esperando por mim… de novo? — disse, com um meio sorriso, meio de ironia. — E isso é urgente?

  O oficial franziu levemente a testa, mas manteve o tom firme.

  — é melhor n?o atrasar, senhor. Sua presen?a é necessária imediatamente.

  Ericu soltou um suspiro dramático, olhando para o céu por um instante, como se pedisse permiss?o ao vento para adiar suas obriga??es.

  Depois, após a cabe?a, conferiu sua espada e deu um passo à frente, pronto para seguir o oficial em dire??o ao palácio, mas ainda mantendo aquele ar de quem sempre encontra uma saída inesperada para cada caminho.

  Eric atravessou as enormes descobertas do palácio, os ecos de seus passos se espalhando pelo ch?o de mármore.

  Ele avan?ou até a presen?a do rei, mantendo o semblante calmo, mas atento.

  — O que você deseja, meu rei? — Disse, a voz firme, mas sem perder a leveza característica.

  Alaric recostou-se em seu trono, os olhos avaliando Eric com a precis?o de sempre.

  — Hoje, meu filho, chegou o momento de assumir o trono — disse, sem pressa. — Seria também uma boa ideia considerar Selene como sua noiva… ou rainha.

  Eric piscou, parcialmente surpreso, mas manteve a postura.

  — Ent?o terei que me preparar para isso — respondeu, com um meio sorriso, como quem ainda acontece, mas que n?o desejava nem um pouco.

  O rei inclinou-se levemente para frente, o olhar avaliado suavizado por um toque de curiosidade.

  — Ela parece muito preocupada com você — disse Alaric, gesticulando com a m?o, quase como se explicasse algo óbvio. — E, diga-me… você está fazendo algo que n?o me conto?

  Eric ficou em silêncio por alguns segundos, sentindo o peso da pergunta e o ar carregado de expectativas.

  O vento que passando pelas altas janelas parecia sussurrar o eco do reino, lembrando-o de que, mesmo livre por instantes, suas escolhas tinham consequências.

  As portas do sal?o se fechavam lentamente atrás de Eric, e o eco dos passos dele distantes pelos corredores largos do palácio.

  O silêncio que ficou era denso, como se o ar ainda guardasse o peso da conversa anterior.

  O rei Alaric ficou sentado por alguns instantes, observando o vazio diante do trono. A chama das tochas tremulava, refletindo nos adornos dourados da coroa que estavam relacionados ao seu lado. O olhar do monarca, porém, estava distante — preso em algo que nem ele parecia compreender por completo.

  Um som leve ecoou do corredor.

  As portas voltaram a se abrir, e Selene surgiu, caminhou com passos firmes, mas o semblante atento.

  — Majestade — disse ela, inclinando a cabe?a em respeito. — Eric… ainda n?o chegou?

  Alaric desviou o olhar lentamente para ela, e por um instante, pareceu medir suas palavras. Depois, recostou-se no trono e respondeu, com a serenidade habitual:

  — Ele já foi.

  Selene piscou, surpresa.

  — Já foi…? — repetiu, confuso. — Para onde?

  O rei pousou o cetro ao lado e conferiu fundo, a voz baixa, quase num tom de desabafo.

  — Foi se preparar para o banquete de hoje à noite. — Um breve silêncio se silêncio. — O banquete em que receberá o trono.

  A express?o de Selene mudou — n?o exatamente choque, mas algo entre incredulidade e hesita??o.

  Ela manteve a postura, mas sua voz soou mais suave:

  — Ent?o é hoje…? — Perguntei, quase uma voz sussurrada.

  — Sim — confirme o rei, com a calma de quem carrega a certeza do resultado. — Hoje, Aeltherra verá os herdeiros serem coroados.

  Ele fez uma pausa, observando-a com aten??o.

  — Mas, por alguma raz?o… ele n?o parece muito contente com isso.

  Selene alegre o olhar, um brilho de dúvida e preocupa??o cruzando seus olhos claros.

  — N?o está contente? – repetiu. — Eric sempre foi… reservado, mas…

  — N?o é apenas reserva, Selene. — Alaric o interrompeu com um tom mais firme. — é algo mais profundo.

  O rei apoiou as m?os nos bra?os do trono, olhando para o vitral que projetava o símbolo de Aeltherra sobre o ch?o. — Ele carrega uma inquieta??o… uma que eu n?o consigo nomear.

  Por um instante, o silêncio tomou o sal?o novamente. O som distante dos sinos e o vento entrava pelas janelas altas, preenchendo o espa?o entre os dois.

  Selene respirou fundo, endireitando a postura.

  — O senhor quer que eu fale com ele, n?o é?

  Alaric inclinou a cabe?a lentamente, sem tirar os olhos dela.

  — Se alguém ainda pode fazer-lo ouvir… é você.

  A resposta veio com um peso sutil — n?o de ordem, mas de confian?a.

  Selene sustentou o olhar do rei por um momento e, enfim, assentiu.

  — Eu vou encontrá-lo. — A voz dela era firme, mas havia uma ponta de incerteza que ela nem conseguiu disfar?ar.

  O rei apenas fez um gesto leve com a m?o, encerrando a conversa.

  Selene fez uma reverência breve, o manto prateado ondulando enquanto se virava para sair.

  Quando chegou à porta, a voz de Alaric a alcan?ou, baixa, quase paternal:

  — E, Selene…

  Ela parou, voltando-se apenas o suficiente para ouvi-lo.

  — Seja gentil com ele. — O olhar do rei suavizou-se, mas havia cansa?o ali. — Um trono n?o pesa apenas sobre os ombros. Pesa sobre a alma.

  Selene manteve-se imóvel por um instante, assimilando as palavras, antes de responder em tom baixo:

  — Eu sei, majestade.

  E ent?o partiu pelos corredores, o som de seus passos se misturava ao murmúrio distante dos preparativos para o banquete.

  Lá fora, os sinos voltaram a tocar — três vezes, como antes.

  Eric caminhou pelos corredores do palácio em silêncio. As tochas acesas projetavam sombras longas sobre o ch?o de mármore, acompanhando seus passos lentos e pesados. Ele n?o falou com ninguém, n?o olhou para os guardas nem respondeu aos cumprimentos dos criados — apenas efeitos em frente, como se cada pensamento pesasse mais do que o anterior.

  Ao chegar diante de sua porta, ele a empurrou devagar, entrou e, sem sequer tirar o manto, deixou-se cair sobre a cama. O tecido cedeu sob seu corpo exausto, e o teto acima pareceu girar por um instante.

  Ali, sozinho, Eric passou a m?o pelos cabelos e respirou fundo. A mente fervilhava com mil possibilidades — alian?as, recusas, fugas, renúncias. Cada decis?o parecia custar um peda?o de si. Durante minutos, ficou imóvel, ouvindo o som distante da cidade lá fora.

  Ent?o, em meio ao turbilh?o de pensamentos, ele parou. O olhar se firmou em um ponto qualquer do teto, e uma verdade se instalou dentro dele. Tinha feito sua escolha. N?o importavam as consequências.

  Mas antes que pudesse sequer se levantar, a porta do quarto se abriu com um estelo suave.

  Selene entrou sem bater, o olhar decidido, os passos firmes — como se já soubesse que ele estaria ali. Fechou a porta atrás de si, sem dizer uma palavra, e caminhou até a cama.

  Sem pedir permiss?o, enviado-se ao lado dele, o manto claro deslizando sobre o colch?o. Por um instante, o silêncio entre os dois pareceu denso, quase palpável.

  Eric virou o rosto na dire??o dela, surpreso — mas o olhar de Selene, sereno e intenso, o fez prender a respira??o.

  Ela o observou em silêncio, como quem tenta ler um pensamento que já conhece.

  Selene o relaxou por alguns segundos em silêncio, até que cruzou os bra?os e soltou um suspiro carregado de frustra??o.

  — Eu sei que você vai fazer merda — disse ela, sem rodeios, a voz cortante, mas com um tom que deixava transparecer preocupa??o.

  Eric possui uma sobrancelha, virando o rosto na dire??o dela, o olhar cansado, mas firme.

  — E daí? — respondeu, sem hesitar, com um meio sorriso ir?nico. — Foda-se. Eu n?o ligo pro que ele fala mesmo… aquele velho pode achar o que quiser.

  Selene bufou, inclinando-se um pouco para frente, tentando conter o impulso de retrucar. O brilho nos olhos dela oscilava entre raiva e algo mais profundo — talvez medo.

  — Você fala como se tudo fosse simples — disse, mais baixo agora. — Mas sabe que n?o é. Você sabe que cada passo errado terá um pre?o, Eric.

  Ele desviou o olhar, fixando-o no teto outra vez.

  — Eu já paguei caro demais pra me importar com o pre?o — murmurou.

  O silêncio foi instalado outra vez. Selene ficou ali, imóvel, observando-o. Era como se tentasse encontrar alguma rachadura daquela express?o fria, algum sinal de que ele ainda hesitava.

  Mas Eric n?o disse mais nada. Apenas respirou fundo, afundando um pouco mais no colch?o, como se o peso das próprias decis?es já o puxasse para o fundo.

  Selene desviou o olhar, os dedos entrela?ados sobre o colo, quando sentiu o colch?o ceder um pouco mais atrás dela. Antes que você pudesse reagir, Eric estendeu o bra?o e a calma suavemente, envolvendo-a em seus bra?os.

  Ela soltou um leve suspiro de surpresa ao sentir o corpo dele encostar nas suas costas. Ficaram ali, por um instante, em silêncio — próximo o bastante para que ela ouvisse a respira??o pesada de Eric, quase como se ele quisesse, por um momento, esquecer o mundo.

  — Eric… — murmurou, sem olhar pra ele. — Para ser safado.

  Eleu solto um breve riso abafado contra o travesseiro e, sem dizer nada, a soltou devagar, virando-se para o outro lado da cama. O rosto afundou no colch?o, e o som de um suspiro longo preencheu o quarto.

  Selene se virou lentamente, observando as costas dele imóveis. Havia algo diferente naquele silêncio — n?o era provoca??o, nem brincadeira… era exaust?o.

  Ela ficou ali, quieta, sem saber se o repreendia ou se o abra?ava de volta.

  Selene o comentou por alguns segundos, tentando decifrar o que se passava na cabe?a dele. O silêncio já durava tempo demais, e aquilo a deixava inquieta.

  — Eric… — chamou, baixinho. — O que você vai fazer daqui pra frente?

  Ele n?o respondeu imediatamente. Moveu-se um pouco, virando o rosto para o lado, ainda deitado, os olhos semicerrados.

  — Eu vou sair do reino — disse enfim, num tom baixo, quase calmo demais. — Mas antes disso, preciso falar com alguém… um amigo. Ele vai me ajudar com o que vem depois.

  Selene piscou, surpresa. O olhar dela se fixou nele como se tentasse encontrar alguma hesita??o, algum sinal de dúvida.

  — Sair do reino? — repetiu, incrédula. — Você está falando sério?

  — Estou. — Eric apoiou o cotovelo no colch?o, passando a m?o pelos cabelos. — Já decidi, Selene. N?o dá mais pra continuar aqui fingindo que tudo ainda tem conserto.

  Ela ficou em silêncio por um instante, absorvendo aquelas palavras. Depois, extrajudicialmente o queixo e falou com firmeza:

  — ent?o eu vou com você.

  Eric se virou um pouco, olhando-a com um misto de surpresa e exaspera??o.

  — O quê?

  — Eu disse que vou com você. — Selene manteve o tom calmo, mas havia determina??o em cada sílaba. — Se vai fugir desse reino maldito, n?o vai fazer isso sozinho.

  Ele suspirou, virando o olhar de volta pro teto.

  — Você é teimosa demais…

  — E você n?o sabe dizer “n?o” pra mim — retrucou ela, com um leve sorriso que tentou esconder a tens?o.

  Eric suspirou profundamente, virando-se para encarar Selene com um olhar sério.

  — Selene… eu n?o posso levar você comigo. N?o seria seguro. — Sua voz era t?o firme, mas carregava o peso da preocupa??o.

  Ela, no entanto, n?o se moveu nem um centímetro. Com um impulso súbito, se jogou sobre as costas dele, abra?ando-o com for?a.

  — Ent?o vamos juntos do mesmo jeito! — declarou, teimosa.

  Eric murmurou baixinho, sentindo o peso dela.

  — Você pesa demais! — reclamou, tentando se mover sob ela.

  Sem movimento, ele acabou virando de frente para ela. Os corpos colidiram levemente, e seus rostos ficaram a poucos centímetros de distancia. O ar entre eles parecia carregado de tens?o, silêncio e expectativa. Seus olhos s?o encontrados, fixos, analisando cada detalhe um do outro, como se tentassem decifrar pensamentos e sentimentos que est?o além das palavras.

  Por um instante, tudo parecia prestes a acontecer. Um beijo parecia aparentemente, mas Eric, com um sorriso contido, inclinado levemente a cabe?a e deu apenas um selinho rápido nos lábios dela.

  — Agora n?o — disse baixinho, ainda próximo dela. — Primeiro preciso falar com Narcht. Ele vai me ajudar a sair do reino em seguran?a.

  Selene arqueou as sobrancelhas, surpresa, mas compreendeu imediatamente que havia algo maior no jogo.

  — Tudo bem… — murmurou, afastando-se apenas o suficiente para apoiá-la sobre os joelhos ao lado dele. — Mas depois dessa conversa com seu amigo, você vai me contar tudo, certo?

  Eric concordou, o olhar ainda firme e determinado.

  Quando Eric declarou-se ela se jogou sobre as costas dele, abra?ando-o com for?a.

  Por um instante, Eric pensou em afastá-la — mas n?o teve coragem. O toque dela o trouxe de volta à calma que ele havia esquecido no meio de tantas decis?es. Ele respirou fundo, sentindo o cora??o dela pulsar rápido contra o seu.

  — Tudo bem… — murmurou, quase num sussurro. — Talvez você possa vir comigo. Mas isso só vai acontecer se Narcht conseguir três cavalos até o anoitecer.

  Selene extraviou o rosto, surpresa. Os olhos dela brilharam como se aquela promessa contivesse mais esperan?a do que qualquer decreto real.

  Eric n?o disse mais nada. Apenas se virou lentamente, olhando pela janela do quarto. Do lado de fora, a cidade ainda descansava sob uma tarde t?o linda. Ele ficou ali, imóvel, com o peso da decis?o em silêncio, como se soubesse que cada palavra dita naquele momento marcaria o início de algo que n?o poderia mais ser desfeito.

  A subida parecia interminável. Cada passo arrancou um suspiro pesado de Eric, que seguiu montanha acima com o corpo curvado e o olhar cansado. O vento frio batia em seu rosto, trazendo o cheiro úmido da terra e o som distante das folhas se movendo.

  — Por que eu fui escolher esse caminho… — murmurou, empurrando com o pé uma pedra que rolou morro abaixo.

  O céu já come?ou a ficar entre laranja e vermelho quando ele finalmente alcan?ou o topo. O corpo pedia descanso, e a pregui?a o fazia parar a cada poucos metros, mas, de algum modo, ele chegou.

  Lá em cima, uma figura o esperado, imóvel, como se já soubesse exatamente a hora em que ele apareceria.

  — Demorou. — disse Narcht, o tom tranquilo e provocador ecoando no vento.

  Eric suavemente o olhar, respirando fundo, com um meio sorriso cansado no rosto.

  — Eu vim andando, n?o voando. — respondeu, ajeitando a capa sobre os ombros. — E essa montanha n?o ajuda muito.

  Narcht soltou um leve riso, cruzando os bra?os enquanto o observava se aproximar. O brilho do por do sol come?ava a pintar o horizonte, dourando as pedras ao redor.

  Os risos foram se acalmando aos poucos, até que restou apenas o som do vento soprando entre as rochas. Eric respirou fundo, ainda deitado, olhando para o céu que come?ava a escurecer.

  — Ah… — murmurou, virando o rosto na dire??o de Narcht. — Você precisa de mais um cavalo. Selene vai comigo.

  Narcht o encarou por um instante, um leve sorriso aparecendo no canto da boca.

  — Já imaginei que você diria isso — respondeu, dando de ombros. — Providenciei o dela ainda antes de você decidir sair do castelo.

  Eric arqueou uma sobrancelha, surpreso.

  — Você me conhece bem demais, hein?

  — Alguém precisa prever as suas decis?es impulsivas — retrucou Narcht, com um tom tranquilo, quase divertido.

  Ericu soltou um breve riso, finalmente se levantando. O vento da tarde bagun?ava os cabelos dos dois, e por um instante o mundo parecia silencioso demais — como se o anoitecer estivesse apenas esperando que eles se movessem para terminar o dia.

  — Sabe, sensei… — disse Eric, ajeitando a capa sobre os ombros. — Você também vai sair do reino, né?

  Narcht olhou para o horizonte, o olhar firme.

  — Vou sim — respondeu, sem hesitar. — Estou indo para o continente do sul… aquele que chama de Antártida.

  Eric conseguiu as sobrancelhas, intrigado.

  — Os continentes congelados? Por que logo lá?

  Narcht cruzou os bra?os, observando o p?r do sol.

  — Tenho alguns planos para realizar por lá — afirmou com tranquilidade. — Principalmente por causa do difícil acesso. é o tipo de lugar onde quase ninguém se atreve a ir… e é exatamente isso que eu preciso.

  Eric o observou em silêncio, entendendo que havia mais por trás daquelas palavras — mas, como sempre, Narcht n?o parecia disposto a explicar.

  — Os cavalos ficar?o preparados à noite, durante o banquete — disse Narcht, quebrando o silêncio. — Vai ser o melhor momento para vocês partirem sem chamar aten??o.

  Eric apenas concordou, ajustando a capa nos ombros e soltando um suspiro cansado.

  — Certo… mas acho que já vou indo. — murmurou, com um tom levemente irritado. — Se eu demorar mais, meu pai vai come?ar aquele serm?o interminável. E sinceramente, eu já n?o tenho paciência pra ouvir as lamenta??es do velho hoje.

  Narcht soltou um pequeno riso, balan?ando a cabe?a.

  — Ainda o mesmo de sempre, Eric.

  — Sempre — respondeu ele, com um meio sorriso, antes de come?ar a descer a montanha.

  Minutos depois o som dos passos ecoava pelos corredores do castelo. As tochas iluminavam as paredes de pedra, projetando sombras longas que dan?avam a cada movimento. Eric caminhava com calma, tentando parecer mais descansado do que realmente estava.

  Ao entrar no sal?o principal, a voz firme de seu pai corte o silêncio.

  — Já estava come?ando a ficar preocupado com você — disse Alaric, erguendo-se levemente do trono, com o olhar sério.

  Eric suspirou, passando a m?o pelos cabelos ainda bagun?ados.

  — Estava apenas conversando com Narcht.

  Alaric franziu o cenho, visivelmente contrariado.

  – Narcht? Aquele garoto que… parece uma garota?

  Eric conteve um riso e assentiu com naturalidade.

  — Esse mesmo. E, por favor, respeite-o, pai. Ele foi meu sensei, mesmo sendo só um ano mais velho que eu.

  O rei ficou em silêncio por alguns segundos, analisando o filho com aquele olhar pesado que misturava autoridade e curiosidade.

  — Posso te fazer uma pergunta, Eric? — disse Alaric, com a voz baixa, mas firme.

  — Claro, pai. — respondeu Eric, sem emo??o aparente.

  — Você… tem algum interesse romantico nesse Narcht?

  O ar pareceu suportar no mesmo instante. O olhar de Eric, antes calmo, fechou-se em uma express?o fria e cortante. A mana em torno dele come?ou a se agitar, visivelmente densa — como uma press?o súbita que fez até as chamas das tochas vacilarem.

  Alaric sentiu o impacto da presen?a do filho e engoliu em seco, surpreso pela intensidade.

  Eric nada disse. Apenas manteve o olhar fixo no pai por alguns segundos — sério, duro, quase amea?ador — e ent?o se virou, caminhos para fora do sal?o sem dizer uma única palavra.

  As portas se fechavam atrás dele com um estrondo abafado, deixando o rei sozinho, observando o rastro quase palpável de mana que ainda pairava no ar.

  Eric caminhava pelos corredores em silêncio. O eco dos próprios passos soava alto demais, e a seguran?a ainda fervia sob a pele. Ele respirou fundo, tentando conter a mana que pulsava de forma irregular — até que, finalmente, chegou diante da porta do quarto.

  Girou a ma?aneta e empurrou a porta com certa for?a.

  Para sua surpresa, Selene ainda estava lá.

  Ela estava deitada na cama, folheando um livro com o olhar distraído. A luz suave da janela iluminava o quarto e fazia o cabelo dela brilhar com castanho claro.

  Eric arqueou uma sobrancelha.

  — Posso saber o que você está lendo t?o técnicas assim?

  Selene relaxa os olhos suavemente, com um sorriso leve.

  — Uma novel da biblioteca Wattpad — respondeu, balan?ando o livro de leve. — O nome é Cavaleiro das Trevas.

  Eric piscou, confuso por um instante.

  — Cavaleiro das Trevas…? Nunca ouvi falar. é bom?

  Selene riu baixo, fechando o livro.

  — Depende do ponto de vista. O protagonista é um pouco cético, estoico e quer bater em geral… Eu acho que ele parece com você Eric.

  Ericu soltou um suspiro cético, mas um pequeno sorriso escapou antes que ele conseguisse esconder.

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