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8. Pulso do vidro

  O calor n?o vinha do céu.

  Vinha do ch?o.

  O vidro sob os pés de Shade pulsava, n?o como algo vivo, mas como um mecanismo antigo que ainda lembrava o ritmo para o qual fora criado. Expandia. Contraía. Um ciclo lento, inexorável. A cada pulsa??o, o ar tremia, e a luz se partia em laminas irregulares.

  Ela respirou uma vez.

  O ar entrou áspero, quente demais para ser confortável, frio demais para ser fogo. N?o era um ambiente que tentava matar por violência. Tentava por insistência.

  Shade deu o primeiro passo.

  O vidro n?o rachou. Afundou um milímetro, como se testasse o peso dela. A superfície clareou ao redor da sola, tra?ando linhas finas que se espalharam em círculos concêntricos.

  — …

  Nenhum som saiu de sua boca.

  As linhas continuaram se formando.

  N?o eram rachaduras.

  Eram símbolos.

  


  ? TRA?O VITAL DETECTADO ?

  PADR?O: INCOMPATíVEL

  A informa??o n?o ecoou no ar. Foi gravada no ch?o.

  Shade retirou o pé.

  As linhas n?o desapareceram.

  O calor aumentou.

  Stolen novel; please report.

  N?o como chama, mas como press?o. Como se o mundo estivesse aproximando duas placas invisíveis, testando até onde ela cederia antes de quebrar.

  Ela caminhou.

  Cada passo era respondido com um novo pulso. O vidro reagia, registrava, memorizava. N?o havia ódio ali. Apenas fun??o.

  à distancia, colunas vitrificadas se erguiam como ossos de um organismo morto. Algumas estavam lisas demais. Outras carregavam ondula??es, marcas de algo que havia passado ali repetidas vezes.

  Shade n?o percebeu de imediato o que aquilo significava.

  Percebeu quando o pulso seguinte veio diferente.

  Mais estável.

  O calor se organizou.

  O vidro sob seus pés deixou de ondular de forma caótica. As linhas agora seguiam trajetórias mais longas, menos dispersas, como se o mundo lembrasse de um padr?o antigo.

  — …?

  Ela parou.

  O reflexo veio ent?o.

  N?o no ch?o inteiro. Apenas numa faixa estreita, à frente.

  Olhos dourados a encararam do outro lado do vidro.

  N?o eram dela.

  O reflexo tinha postura. Peso. Uma presen?a que n?o vacilava com o calor.

  Shade sentiu o est?mago se contrair.

  O símbolo sob seus pés reagiu de novo.

  


  ? ANOMALIA SOBREPOSTA ?

  ORIGEM: N?O LOCALIZADA

  O calor subiu abruptamente.

  Dessa vez, doeu.

  A press?o atravessou a pele, alcan?ou os ossos, fez os pensamentos perderem coes?o. Shade caiu de joelhos, a palma da m?o tocando o ch?o incandescente.

  O vidro n?o queimou.

  Registrou.

  Linhas subiram pelo bra?o dela como nervuras luminosas antes de se apagarem.

  — N?o…

  O som saiu falho.

  O pulso seguinte veio mais forte.

  O mundo decidiu.

  N?o que ela fosse inimiga.

  Mas n?o pertencia.

  A superfície ao redor come?ou a se fechar em micro-ondas de calor concentrado. N?o chamas. N?o explos?es. Um cerco térmico.

  Shade tentou se levantar.

  As pernas n?o responderam.

  O reflexo dourado no vidro se afastou.

  N?o em fuga.

  Em cálculo.

  A última coisa que ela sentiu antes de o pulso esmagar seus sentidos foi uma certeza inc?moda:

  Alguém já havia aprendido a sobreviver ali.

  E o mundo lembrava disso.

  Quando o vidro pulsou novamente, Shade já n?o estava consciente para responder.

  Fim do capítulo 8.

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