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Capítulo 1 — A Decepção

  O ar no quarto principal da Mans?o Wolford estava espesso, cheirando a ervas medicinais e suor. A press?o da mana no ambiente era t?o pesada que as velas nas paredes tremeluziam violentamente.

  — Vai, senhora! For?a! Só mais um pouco!

  Os gritos da parteira ecoavam pelas pedras frias.

  — Ahhh! — Sara Heisenberg apertou os len?óis com tanta for?a que o tecido rasgou. Seu rosto estava encharcado, a aura mágica amarela oscilando em chamas invisíveis pela exaust?o extrema.

  De repente, a press?o no quarto cedeu. Um choro agudo cortou o silêncio tenso.

  — Pelos deuses, parabéns, senhora! — a parteira ergueu o pequeno embrulho, sorrindo aliviada enquanto o limpava. — Você deu à luz um menino forte!

  [3 Anos Depois]

  A luz quente da tarde banhava o ber?ário. Shin Wolford, a lenda dos Circuitos Azuis e o maior estrategista de Eldória, debru?ava-se sobre o ber?o. O homem que aterrorizava exércitos exibia um sorriso bobo e desarmado.

  — Sara, observe a concentra??o dele! — murmurou Shin, fascinado, ajeitando os óculos. — O nosso filho finalmente abriu os olhinhos e está analisando o quarto inteiro. A forma como a mente dele já processa o ambiente... é assaz promissor.

  Sara encostou no batente da porta, os bra?os cruzados sobre a armadura leve. Ela sorriu, uma express?o rara e suave.

  — Apenas segure-o direito, Shin. Ele é um bebê, n?o um dos seus grimórios antigos. Mas sim... ele tem o seu olhar analítico. O destino dele será brilhante.

  [Igris Wolford — 5 Anos de Idade]

  — Olá! Eu sou Igris Wolford! — eu declarei para o espelho do meu quarto, segurando uma espada de madeira pesada demais para os meus bra?os. — E o meu sonho é me tornar a lamina mais forte de Eldória!

  Hoje era o dia. O dia em que a Guilda revelaria a cor da minha alma: meus circuitos mágicos.

  Eu já havia devorado os livros da biblioteca. Sabia como o mundo funcionava. Papai possuía Circuitos Azuis — um oceano de mana destrutiva, magia de guerra pesada. Mam?e tinha Circuitos Amarelos — chamas indomáveis e letais. Eu precisava ser no mínimo Azul para manter o legado. Se a meritocracia de Eldória era um jogo, eu precisava de bons status iniciais.

  Quando desci para o grande sal?o, a expectativa era quase sufocante. Minha m?e mantinha a postura reta de uma Vice-Comandante, a m?o no pomo da espada. Meu pai estava com os bra?os cruzados, o peito estufado. No centro da sala, o Avaliador Oficial do Palácio Real alisava a barba grisalha.

  — Aproxime-se, jovem mestre — disse o velho avaliador, a voz arrastada e cerimoniosa. Ele apontou para o Orbe de Mana sobre um pedestal. — N?o tema. Deixe o cristal ler a forja do seu cora??o e revelar a dádiva dos deuses.

  Engoli em seco. O cora??o martelava contra as costelas como um tambor. Levantei a m?o trêmula e espalmei sobre a pedra fria. Fechei os olhos. Por favor, Azul. Por favor.

  Zummm.

  A runa vibrou. Uma luz banhou o sal?o.

  Abri os olhos. O brilho n?o era do azul profundo dos oceanos, nem do amarelo vibrante do sol.

  Verde.

  Um verde opaco. Lento. Sem vida. O tipo de circuito que servia apenas para acender fogueiras de acampamento ou misturar po??es fracas. Magia de base. Lixo militar.

  A decep??o caiu sobre o sal?o como uma bigorna. A respira??o longa do meu pai falhou audivelmente. Os ombros da minha m?e caíram uma fra??o milimétrica — o equivalente a um colapso para alguém como ela. O velho avaliador arregalou os olhos e pigarreou, quebrando o silêncio fúnebre.

  — Bem... uma cor muito... estável, jovem mestre.

  O sorriso amarelo e for?ado que meus pais deram n?o me enganou. Contra fatos, a nobreza de Eldória n?o tinha argumentos. Eu era um inútil.

  Naquela mesma noite, a mans?o foi decorada com luzes feéricas e magia ilusória para o meu aniversário. Um bolo gigantesco, de três andares, ocupava o centro da mesa farta.

  Mas o sal?o estava assustadoramente vazio.

  Ninguém veio. Nenhuma carruagem nobre. Nenhum oficial militar. As desculpas esfarrapadas chegaram por cartas apressadas. Em Eldória, o "garoto de circuitos verdes" n?o valia o investimento. Eu havia me tornado um NPC descartável no primeiro dia de vida pública.

  Olhei para o bolo enorme, intocado, parecendo uma montanha solitária. O gosto amargo do isolamento apertou minha garganta. Comi um único peda?o em silêncio e fugi para o meu quarto.

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  Ao me deitar, afundei o rosto no travesseiro. Que saco. Eu só queria dar orgulho pra eles. Mas, assim que o sono come?ou a pesar nos meus olhos... o mundo parou.

  Literalmente.

  O som dos grilos foi cortado. A poeira que dan?ava no raio de luar congelou no ar. Tentei respirar, tentei me mexer, mas meu corpo estava completamente paralisado em um cenário cinza e sem tempo. O panico subiu à garganta.

  Ent?o, cortando o vazio, uma janela translúcida e brilhante rasgou a escurid?o bem na minha frente.

  [Despertar Concluído!]

  Você foi o Escolhido Divino para uma tarefa crítica.

  O Sistema agora está atrelado à sua alma, concedendo a habilidade de crescimento infinito.

  [AVISO CRíTICO]

  O Jogador está absolutamente proibido de revelar a existência deste poder a qualquer ser vivo.

  Penalidade: Morte Instantanea!

  Você aceita o contrato?

  [SIM] / [N?O]

  Eu encarei as runas azuis. Morte instantanea. O aviso era aterrorizante para uma crian?a, mas a memória do sal?o vazio, do bolo intocado e da humilha??o queimou mais forte no meu peito. Eu me recusava a ser o lixo esquecido da família Wolford.

  Mentalmente, com todo o ódio que consegui reunir, gritei:

  Sim!

  Uma luz ofuscante invadiu minha mente e eu apaguei.

  [No Dia Seguinte]

  A luz do sol esbofeteou meu rosto. Abri os olhos ofegante. Foi um pesadelo?

  N?o. Logo ali, flutuando silenciosamente ao lado da cama, estava a tela azul. Estiquei a m?o, mas meus dedos atravessaram o ar vazio. A janela piscou:

  O Sistema n?o é físico. Ele é lido e guiado puramente pela sua vontade.

  "Guiado pelo pensamento?", pensei, sentando na cama. Imediatamente, o Sistema reagiu. Janelas menores se abriram, organizando-se perfeitamente no meu campo de vis?o com tutoriais rápidos. Eu ignorei a maioria, faminto por respostas, e foquei na aba principal: Status.

  STATUS DO JOGADOR

  Nome: Igris Wolford | Nível: 1

  For?a: 3 | Velocidade: 2

  Defesa: 1 | Resistência: 1

  Inteligência: 12 | Percep??o: 2

  Títulos/Habilidades: Nenhuma

  Eu encarei os números. Defesa 1. Eu era feito de papel molhado. Mas aquele doze em Inteligência mudava tudo. Eu n?o tinha o canh?o mágico do meu pai, mas eu tinha uma mente afiada e uma ferramenta cheat. A euforia borbulhou.

  "Como eu fa?o pra upar isso aqui?", perguntei mentalmente.

  Bipe.

  [Aviso!] Para subir de Nível, é estritamente necessário derrotar monstros.

  — Sério? — murmurei para o teto. — Mano, eu tenho Defesa 1. Se um slime espirrar em mim, eu viro farelo! Tem que ter outro jeito.

  [Informa??o Adquirida!] O Jogador pode aumentar atributos baseando-se em Miss?es Diárias.

  [AVISO] Quantidade de perguntas diárias excedida. O canal de dúvidas foi bloqueado por 24 horas.

  A tela de comunica??o ficou cinza e travou.

  — Ei! Volte aqui, sua interface bugada! — reclamei, jogando os bra?os para o alto. O Sistema n?o era um tutor gentil; era uma máquina impiedosa.

  Eu suspirei, usando a lógica. Precisava de um parametro. "Qual é a minha For?a atual comparada ao mundo real?", pensei, torcendo para que diagnósticos passivos n?o contassem como pergunta.

  A tela tremeu e gerou uma última linha de texto:

  [Diagnóstico Físico:] A for?a bruta do Jogador equivale atualmente à de um coelho filhote da floresta.

  Um coelho.

  Eu rangi os dentes, meu rosto esquentando. Um coelho?! Filhote ainda por cima?! Eu, o herdeiro dos Wolford, sendo comparado a um bicho fofinho e indefeso. O sistema tá de sacanagem comigo. Cerrei os punhos finos. Tudo bem. Se era pra ser um coelho, eu seria um que chutaria a cara desse Sistema.

  [Miss?o Diária Adquirida: O Caminho do Fraco]

  20 Agachamentos | 20 Flex?es | Correr 1 km

  Recompensa Inicial: +10 Pontos de Atributos Aleatórios.

  Dez pontos. Era a minha chance de sair do tier roedor. Afastei o tapete de pele de urso e respirei fundo.

  — Vamos lá. Primeiro, agachamento.

  Desci o corpo.

  Um. Minhas pernas tremeram como folhas ao vento.

  Dois. Crack! Meus joelhos estalaram como gravetos secos.

  Três...

  Thud! Caí de bunda no ch?o de madeira, puxando o ar com desespero.

  — Já morri?! Caramba, isso é muito mais difícil do que parece! — limpei o suor. — Tá, flex?o. Flex?o usa os bra?os.

  Deitei de bru?os e empurrei o peso do corpo.

  Um. Meu rosto ficou vermelho como um tomate.

  Dois. Meus cotovelos cederam. Smack! Beijei o assoalho duro. Os músculos minúsculos dos meus bra?os queimavam como se ácido corresse nas minhas veias. A puni??o física do Sistema era real e brutal.

  Derrotado, decidi descer para o andar de baixo para buscar água. Eu devia estar parecendo um zumbi de nível 1, arrastando os pés pelos corredores. Mas, antes de entrar na sala de jantar, ouvi vozes abafadas vindo do escritório. A pesada porta de carvalho estava entreaberta. Fiquei na ponta dos pés, me esgueirando para ouvir.

  — Sara... o nosso filho é fraco demais — a voz de Shin estava irreconhecível. Rouca, arrastada, como se carregasse o peso do reino inteiro. — Ele mal tem circuitos mágicos. A mana n?o flui nele. Como ele vai sobreviver? O mundo lá fora vai mastigá-lo vivo!

  Meu cora??o falhou uma batida.

  — Eu sei, Shin — minha m?e respondeu. O tom era firme, tático, mas havia um tremor imperceptível em sua voz. — Mas magia n?o é tudo num campo de batalha. Igris é assustadoramente inteligente. Ele devora os livros da biblioteca como um drag?o faminto.

  Ouvimos o clink de um copo de vidro batendo forte na mesa.

  — De que adianta a mente se o corpo quebra, Sara?! — Shin elevou a voz, antes de suspirar em pura derrota. — Você viu o sal?o hoje. Ninguém veio. A alta sociedade já virou as costas pra ele.

  O silêncio que se seguiu foi cortante. Eles n?o sentiam vergonha de mim. Eles estavam aterrorizados por mim.

  — é verdade — Sara murmurou, a armadura rangendo levemente. — Ent?o, vamos fazer o seguinte. Ao invés de tra?armos um destino medíocre para tentar escondê-lo, vamos deixar que ele escolha a própria arma.

  — O que você sugere?

  — Se ele quiser ser um alquimista seguro nos fundos de uma guilda, nós pagamos os melhores mestres. Mas se ele ainda desejar empunhar uma lamina, nós vamos treiná-lo. A escolha será dele.

  — Está bem — Shin concordou, aliviado pela decis?o prática da esposa. — A vida é dele, afinal.

  Apertei as m?os contra o peito. Eles me amavam o suficiente para me jogar aos lobos se fosse isso que eu quisesse, apenas para que eu n?o vivesse uma mentira.

  Eu n?o seria o filho fraco que precisava de prote??o.

  Ignorei o tremor excruciante nas pernas, endireitei a postura e dei um passo pesado e intencional no corredor.

  Creak.

  A madeira rangeu alto. A conversa no escritório parou abruptamente.

  A porta se escancarou. Papai e mam?e estavam ali, tensos. Shin Wolford olhou nos meus olhos, o brilho de afeto inabalável rompendo a máscara de mago implacável.

  —

  Igris! — ele chamou, cruzando os bra?os pesadamente. — Entre. Temos que conversar.

  [FIM DO CAPíTULO 1]

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